sábado, 21 de novembro de 2009

E a educação, cadê?!

O caso Geisy já rendeu muito papo, muito debate nos meios de comunicação. De tudo que vi e li tem uma coisa que não me sai da cabeça: a que ponto chegou a falta de qualidade das instituições de educação do nosso país.
Se a Geisy fosse linda, se estivesse com uma minissaia de grife, cabelo bem pintado e estudando em uma universidade cara, será que este escândalo haveria acontecido?! Aposto que não. E se caso houvesse certamente a reitoria teria tomado outra atitude com os estudantes que fizeram todo aquele tumulto.
A educação no Brasil terminou de se banalizar com a criação dessas universidades que cobram 200, 300 reais mensais (como é o caso da Uniban), lugares que na sua maioria nada mais são do que fábricas de dinheiro. O público alvo destas universidades são as pessoas de baixa renda, aqueles que já tentaram passar no vestibular em várias universidades e aqueles que só querem dizer que estão cursando o nível superior.
Não sou contra que pessoas de baixa renda estudem, se eduquem, muito pelo contrário; o que sou contra, sim, é que os educadores e as instituições de ensino sejam de má qualidade.
Se os professores/funcionários na Uniban tivessem nível, educação, teriam parado este tumulto no primeiro minuto para darem exemplo aos baderneiros de plantão.
Vi também a opinião de algumas estudantes de Uniban sobre o “mau” comportamento de Geisy. Entre várias bobagens ditas uma delas foi a de que universidade não é lugar para usar saia, “temos de nos vestir adequadamente”. Então, eu pergunto, o que é se vestir adequadamente?! Quem sabe a Uniban institui o uso obrigatório de uniforme para que a moral e os bons costumes sejam preservados?!
Me envergonho em saber que ainda há mulheres com a mentalidade tão pequena. Quanto aos machos ignorantes, só posso dizer que são uns coitados. Será que quando olham suas mães e irmãs usando saias curtas eles gritam “vagabunda”?! A raça humana é decadente e os homens brasileiros uns hipócritas.
Espero que a Geisy saia na revista Playboy. Os idiotas do tumulto não terão mais o prazer da companhia dela, vão ter de se contentar com as páginas da revista. Espero que a Geisy encha o bolso de grana e escolha uma universidade de qualidade para se graduar. Aproveita teus 15 minutos de fama!

sábado, 14 de novembro de 2009

Um amor de 30 anos

O texto da caixinha tocou fundo e incentivou a crônica a seguir. Após constatar uma lacuna emocional de 30 anos na minha vida sentimental, me comprometi, em solene convenção das Mulheres de Quinta, a escrever sobre o ocorrido. O espaço de três décadas casou direitinho com a preciosa simbologia da caixinha. O mais curioso é que nem percebi que havia passado tanto tempo. Parece que foi ontem. Que bom!
Pois eu tirei o príncipe do pequeno compartimento; ele reapareceu na minha frente do nada. Uma simples busca na internet e bingo: encontrou o meu nome, sem me procurar, e decidiu conferir.
Olhei uma novidade daqui, outra de lá, e decidi que estava na hora de pagar para ver o Mauro, depois de 30 anos. Eu apostei tudo, no tudo ou nada. Conferi que muitas coisas aconteceram no tempo que passou, mas o sentimento que pensei que não existia estava guardado no cântaro ao lado dele.
Fui observando e percebi que a minha organização psicológica havia permitido esconder preciosidades em diferentes compartimentos. Foi neste instante que o Mauro reapareceu, se transformou no homem que me permitiu maior satisfação do que o garoto de outrora. A emoção guardada foi desvendada na frente do homem maduro, mais bonito, atencioso, que chega aos poucos e com firmeza.... Vou parar este tópico por aqui porque, bem, deixa assim.
Ele me convidou para almoçar. Fiquei tão nervosa quanto qualquer adolescente que se permite viver as emoções. Ele estava a-pa-ren-te-men-te calmo, mas eu percebi que estávamos em estado de choque, de sonho, ilusão, com o questionamento tipo: será realidade?
As cenas que seguiram pareciam coisas de novela das seis da tarde, sem manifestação de testosterona ou progesterona. Isto não significa que eu não tivesse ficado com vontade, mas o tempo era curto. Graças a Deus. Senão a gente entraria em clima de Nove e Meia Semanas de Amor em plena segunda-feira. Até que seria uma ótima ideia. Após três décadas, os olhos se encontraram e, na cumplicidade, viram as mãos se afagarem e eu me senti a mulher mais feliz da Via Láctea.
Os lábios foram testemunhas do descerramento dos mistérios. O príncipe continuou príncipe e eu percebi que a realidade tem gosto bom, cheiro estimulante e toque especial.
Estes são os sentimentos das minhas descobertas com o Mauro e isto é tudo que importa no hoje, sem pensar – apesar de desejar – se vai permanecer assim pelos próximos 30, 40, 50 anos.

Foto: Ivan Petrov

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A paixão numa caixinha

Assim: você conhece um cara legal, muito legal, que parece ter tudo para ser seu parceiro ideal. Por algum motivo, a história não rola, não dá certo. Mas ele continua parecendo tudo de bom. Essa é a hora de colocar o príncipe na caixinha.
O termo “a caixinha” foi um amigo meu que cunhou – ele queria colocar a ex-namorada numa caixinha, guardar aquele amor para lembrar e tirar de lá em um momento melhor. Achei tão engraçadinho e tão parecido com o que sempre acreditei, que adotei o termo para mim. Tenho alguns meninos na minha caixinha.
Há muitos motivos para uma paixão não vingar. Vocês podem querer coisas diferentes da vida. Também pode ser que você (ou ele) esteja namorando. Não saber como se achar, se foi um encontro fortuito, ou estar só de passagem por algum lugar. Às vezes simplesmente o vento não sopra como deveria – o fato é que o cara perfeito esteve ali na sua frente, e o barco não navegou. Lá vai ele para a caixinha.
A magia da caixinha é ela ser invariavelmente bonita e nunca ficar pequena. Podemos guardar nela a imagem idealizada de alguém que não chegamos a conhecer por completo, o reflexo apenas do encontro, em que a decepção ainda não deu as caras. É bem provável que vários desses príncipes tenham potencial para sapos num relacionamento mais longo. Mas, enquanto a gente não sabe, lá ficam eles tão perfeitinhos para que possamos relembrar em fases menos promissoras.
Claro que não adianta viver só disso – você pode morrer de velha à espera de que aquele cara maravilhoso que conheceu num café em Istambul volte a aparecer em sua vida em momento e lugar mais propício. Muitos dos príncipes nunca saem da caixinha. Mas às vezes a vida conspira, eles reaparecem, e o vento volta a soprar. O negócio é viver – e se o príncipe, depois de beijado, continua príncipe... ah, como é bom!

E você, tem uma caixinha?

Imagem: Ilker/Stock.xchng

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O homem, o pênis e a vagina

Não me atreverei analisar o tema com uma visão freudiana pois não sou letrada para tanto. O que tenho sim é experiência de vida e consequentemente certo conhecimento (vivido na prática) acumulado.
Desde que comecei a querer e a conhecer o corpo masculino, observo que certos homens têm a necessidade de dar nome ao seu pênis; já ouvi coisas do tipo:”ele”, ”júnior”, “o querido”, “jonas”, “o amigo”, entre outros. E, já que estes pênis possuem nomes próprios, são tratados como se fossem uma pessoa. Uma vez um cara me disse: Dá um beijo nele? Eu, sabendo do que se tratava, tive de tirar um sarro e disse: Nele? Tem outro cara aqui? Chama ele aí, vamos fazer uma brincadeira a três.
Há também os homens que se referem à vagina na terceira pessoa: Ah! Deixa eu tocar nela! Ou então: Deixa “eles” conversarem (quanta gente nessa cama, penso eu).
Vendo os órgãos genitais como um ser à parte, fica fácil compreender por que certos homens acham que sexo é apenas a penetração, o famoso pau dentro. Daí eles reclamam que a mulher não é boa de cama, que ele quase não teve vontade de gozar, entre outras bobagens.
Estes homens acabam sendo aqueles que só servem para trepar e olhe lá. Sim, trepar mesmo, tipo bicho, pois este tipo de homem descompreende o quão gostoso e complexo é o sexo.
Um aviso ao homens que assim se comportam e para as mulheres que aceitam este comportamento: os órgãos genitais não têm vida própria, fazem parte do nosso corpo; portanto, esqueçam do “amigo”, ”júnior”, “dela”.
Sexo não se resume em pênis e vagina. Sexo de qualidade começa com um bom papo, um carinho no rosto – até chegar numa mordidinha no dedão do pé. E, de um extremo ao outro, são feitas várias paradas: para se aproveitar cada parte do nosso corpo.

Foto: Sandy Lewanscheck/Stock.xchng

domingo, 1 de novembro de 2009

Eu ia escrever...

Nós, Mulheres de Quinta, interagimos de forma cada vez mais frequente, diria que é um saudável vício diuturno, que se estende de domingo a domingo, por email, telefone, MSN, pessoalmente, teleboy ou transmissão de pensamento. Às vezes estamos reunidas, falando ao mesmo tempo e em clima de cumplicidade. É lógico que todas se entendem, pois tal habilidade é natural entre nós, mulheres, que fazemos muitas coisas ao mesmo tempo. Em outros momentos, choramos, rimos ou sonhamos aos pares, por princípios de identificação ou necessidade de desabafar para aquela amiga.
Um desses encontros ocorreu em uma sexta-feira, durante um breve e maravilhoso happy hour, em que, como sempre, eu aprendi coisas interessantes.
Muitas sugestões de crônicas surgiram no meio das eloquentes conversas, pois uma serve de inspiração para outra e acabamos contaminadas, além de definir, como se fosse uma pauta, quem vai falar deste ou daquele assunto. Só que o acordo dos temas não é algo assim, como diria, “compromisso moral”.
A gente diz que vai escrever sobre determinada proposição, mas muitas coisas acontecem entre a mesa do bar e o computador de cada uma de nós. As ideias se dissipam e até se transformam, como está acontecendo comigo agora. Só que a promessa da crônica foi realizada por mim, uma das anônimas do blog, mas o texto legal e desprendido que sai deste ’corpitcho’ é da Laïla, a minha caprichosa inspiração que só se personaliza quando quer e tem vontade. Já faz 24 horas que chamo pela Laïla e nada.
Assim, mudei a pauta, como faria uma repórter que sai para cobrir a quermesse e acaba encontrando o Papa. Hoje estou me achando e quero mais é assumir a personagem de papisa da minha oportunidade e, quem sabe, reforçar o compromisso de um dia escrever sobre o tema que prometi. Aproveito a minha singular chance para deixar um recado para Laïla: “Obrigada por permitir a minha manifestação, mas aparece logo porque as Mulheres de Quinta merecem palavras mais espirituosas”.

Foto: Tommy Johansen/Stock.xchng

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Homens loucos I

Do lado dele deixei de sorrir. Sem ter onde cair morto, eu carreguei ele nas costas. Deixei de ir na minha ioga, mas pagava a academia dele. Eu não tinha internet pra mim, mas contratei o serviço porque afinal ele, como era autônomo, não podia ficar sem: como é que ia conseguir trabalho? O fato é que nem assim conseguia, talvez porque passasse o dia inteiro vendo putaria online e filmes na NET. Sim, eu pensei em cortar meu plano, mas ele, que já estava deprimido, me chantageou dizendo que só ficaria pior se nem pudesse ter aquela distração nos dias em que o trabalho não aparecia. Nunca apareceu, é claro. E o pior, no ano em que moramos juntos, posso contar nos dedos as vezes em que transamos. Ele parou de tomar iniciativa e eu perdia a mínima vontade cada vez que chegava em casa e encontrava copos e pratos quebrados ou então me deparava com um cara raivoso, que só sabia me cobrar mais e mais. Que invejava os amigos bem-sucedidos e tomava todo o meu uísque importado. Que fazia contas e mais contas que eu já não tinha como pagar. A gota d’água foi uma janela quebrada, em um ato total de descontrole. Com tanta porcaria que ele fazia, tentava ainda por a culpa em mim. Ah... tudo tem limite. Pena que deixei chegar nesse ponto. Espero ter aprendido. Na verdade, eu é que fui louca de ficar com um louco desses! Mandei ele se tratar (bem longe de mim) e confesso que é um alívio estar hoje sozinha. Não preciso nem de uma notícia boa para ser feliz – vivo contente apenas por não chorar todo santo dia!

Este é o início de uma série de textos curtos sobre coisas absurdas de homens absurdos que nos aparecem. Fatos que já nos fizeram chorar e que hoje rendem boas risadas! Contribuições são bem-vindas: todas estão convidadas!

Foto: Scott Adams/Stock.xchng

domingo, 18 de outubro de 2009

Whisky X Memória

By Carminha

Sou mulherrr que bebe, que bebe com classe, com estilo. Minha bebida predileta é o whisky, whisky de qualidade, diga-se de passagem – a Escócia jamais foi a mesma depoisss que passei por lá.
Porém, tenho um pequeno problema com esse néctar dos deusesss, ele me causa lapsos de memória. Não foram poucas as vezesss em que me lembrei do que fizzz e do que não fizzz somentes uns dois ou três dias depois do ocorrido. Algumas vezes me vêm à mente somente fragmentosss dos meus atosss.
Me recorrrdo, por exemplo, que comecei dançando na fesssta e depois, não sei como, fui pararrr numa praça discutindo/namorando com o rapazzz que era, digamosss, um pseudonamorado. Me recorrrdo que voltamos para a pisssta de dança e a festa acabou muito bem, obrigada.
Depois de um tempo o rapazzz me contou todas a barbaridades que eu disse a ele.
Houve tambem a vezzz em que no dia seguinte, horasss depois de a festa acabar, perguntei ao namorado da época se realmente havia dito e feito cerrrtas coisas das quais estava me lembrando. Ele, todo contente, me disse que sim – e que gostaria de saber quando é que iríamos tomarrr um porre de whisky novamente.
Caí na pista de dança, levantei plena e absoluta e segui dançando. Já entrei na cozinha da festa pra perrguntarr por que que o garçom estava demorando para levar meu whisky; tive converrrsasss ótimasss e fizz grandes confidênciasss para pesssoas que jamais irei ver novamente; já me acorrrdei na cama sozinha, sem terrr a menorrr ideia de como fui parar lá.
São muitasss as históriasss que tenho para contar, ou melhor, para lembrar, tendo o whisky como companheiro. Acredito que algumas nem tiveram final tão feliz; o que garanto é que no dia seguinte eu estava linda, pronta para outra, porque Carrrminha e whisky de no mínimo doze anos são assim, meu bem. Luxo puro e diverrrsão garantida.

Foto: Quentin Houyoux/Stock.xchng

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O primeiro e-mail

By Gilka

Meu primeiro e-mail era preto com letras verdes de fósforo e só funcionava dentro da universidade. Tínhamos que ir ao cê-pê-dê e pedir uma senha para ser atendido por uma gorda que retrucava “esse usuário já existe” (trocentas vezes) até ganharmos uma conta no Vortex. Apesar das dificuldades, a febre espalhou-se rapidamente. Como não existiam sites para visitar, e se existissem, não sabíamos o endereço, e se soubéssemos, a operação seria por códigos que ninguém entendia, a opção popular era trocar e-mails com os colegas do mesmo curso. Adivinhem o assunto.
Na velocidade dos três-oito-meias, se descobriu que era mais fácil teclar sobre coisas que não se falava pessoalmente, e se falássemos, também não teria a mesma graça. markinhus@vortex.ufrgs.br ficou com valeria79@vortex.ufrgs.br que acha duarte.bruno@vortex.ufrgs.br gostoso mas nunca teve coragem. Então uma amiga comentou que um dos usuários era bom de cama. Pronto! Eu me apresentei por e-mail mesmo, e fui averiguar a tecnologia. O rapaz? Estudava na minha sala, mas nunca tínhamos dirigido a palavra. A cama? Bem grande. Mas a surpresa foi um amigo dele – a quem fui apresentada e que veio a ser o primeiro homem que amei. Bem ou mal, nos conhecemos através da internet!
Meses depois, essa conexão caiu e arrasou meu sistema. Terapia, terapia, terapia. Fiquei escaldada e passei de lado por todas as evoluções da internet. Caguei e andei pro Orcutifício, pro Caralivro e pro Piante. Confesso que tentei o chate do Terra. Arrumei uma trepada (um horror) e nunca mais entrei. Enchia a boca para falar mal da coisa. Onde tu conheceste ele? Na internet? O quê? Isso não vai dar pé. Imagina, ele pode ter se copiado e se colado todinho, se passado o corretor ortográfico genital e tudo mais. Guria! Isso é um perigo.
Quinze anos e eu forte, crente e fiel ao barzinho, balada, prazer, qual é o teu nome, o teu signo, tu vem sempre aqui? Dia desses eu fui a um bar e me vi naquela situação cama outra vez. Igualmente grande. E dessa vez a surpresa foi o site que ele me apresentou: www.last.fm. Uma rádio on-line que registra todas as músicas que eu escuto. A cama seguiu seu rumo, porém a rádio ficou nos favoritos. Navegando entre usuários, conheci um gatinho que vive na Escandinávia.
A primeira mensagem era branca com letrinhas pretas de cristal líquido. Nem dava para notar de tão inocente que foi. Bá, legal o teu gosto musical. Eu respondi. Obrigado por visitar meu perfil, eu também curto Jay-Jay Johanson. Desde então, em dez meses, foram dois mil e-mails, mais de um terabyte de fotos, músicas e filmes trocados, sem falar no Skype. Como é que pode? A gente nunca se encontrou pessoalmente e eu nem quis perguntar o signo dele.

Foto: Stephanie Hofschlaeger/Stock.xchng

sábado, 10 de outubro de 2009

Elucubrações de Laïla

By Laïla

Laïla, minha inspiração, é um ser maravilhoso e inteligente. É tão intelectual que às vezes, ou melhor, todas as vezes, só consigo captar parte das mensagens sugeridas. De repente percebo que o entusiasmo Divino se manifesta no nosso dia a dia de maneira simples. E nem se importa em ver o nosso nome assinar sua criação.
A ignorância humana não permite entender que, essa “coisa” que vem de uma hora para outra, que nos arranca suavemente do descanso e nos coloca em alerta para ouvir com o coração, é algo muito especial, tão especial que não conseguimos explicar, apenas sentir que é bom.
A ideia se apresenta calmamente, mas seu raciocínio está séculos luz a nossa frente. E eu, com meu modesto QI (de sabe-se lá quanto, pois nunca dei credibilidade para esse detalhe), sinto necessidade de acompanhar suas palavras. Percebo-me como uma aluna de letras passando pelo desafio de efetuar um quilométrico cálculo matemático.
Compreenderam o entrave da mortal que recebe dádivas e mais dádivas? O relacionamento intuitivo é simples e complicado: Laïla é compassiva e eu, pós-insensível. Sou a criatura que não é totalmente ignorante, pois tenho determinada vivência. Poderia me definir como bacharel em percepção. Um dia chegarei ao doutorado.
A nossa interação funcionaria como um quebra-cabeça quase perfeito, se não fossem minhas limitações sensoriais. Ela é a poderosa mão, e eu, apenas o dedo com a consciência de quem não pode sobreviver sem aquela; também posso ser o coração fora do corpo ou a raiz sem a terra. A Laïla arremessa a bola com a técnica de uma jogadora habilidosa, e eu pego o que der, como conseguir.
Depois que deu seu recado, de maneira calma e tranquila, a inspiração retorna sei lá para onde. Faço o balanço da minha atuação e começo a trabalhar. Vou me ocupar com um excelente prazer na vida: casar as palavras, hábito que admiro desde meus 11 ou 12 anos de idade.
O ofício da crônica indica que a invenção não é particular. A necessidade de escrever não vem de mim, mas em mim. Se eu quiser desenvolver um texto a partir de um tema determinado, não conseguirei o objetivo. A não ser que o tópico se refira a uma matéria jornalística, mas aí é outro assunto. A técnica reina sobre a emoção.
O registro do entusiasmo criador necessita do combustível inspiração para que o veículo escrita se dirija a algum destino. E esse lugar eu nunca sei onde é, mas vou interagindo. Percebo que o acaso é paciente. As sensações tomam conta do meu ser e exibem modelos de pensamentos elaborados com nobreza. Isso é o que sinto, apesar de nem sempre colocar no papel. Pelo menos fico atenta aos sentimentos oriundos de Laïla, através de suas elucubrações.

Foto: Gözde Otman/Stock.xchng

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Dar ou não dar?

Na verdade, não sou a pessoa mais adequada para abordar este tema, pois nunca lutei comigo mesma para não transar de primeira. Sempre foi algo natural, e sim: nessa naturalidade das coisas, quase sempre acabei dando de primeira mesmo. Muitas mulheres, talvez até a maioria (vocês é que vão dizer), funcionam de outra forma e acham o que estou escrevendo um absurdo. Mas não vejo porque fazer o joguinho de faz de conta dos primeiros encontros (“Ai, não posso, não vai dar”), se a vontade é mesmo a de transar. Esse se-fazol é pura insegurança, pois estas mulheres acham que os caras não vão mais procurá-las se elas se entregarem na primeira vez.
Gente, se é para ser e o sexo for bom, rolar química entre os dois, o cara só não vai procurar depois se for muito machista. É, porque tem cara que pensa que se a mulher faz sexo na primeira noite não é “mulher para casar”. Fica imaginando com quantos ela já transou, e aí só vai usá-la para “lanchinho”. A esses carinhas, eu só posso dar uma dica: uma mulher que só transa depois do clássico quinto encontro pode ter dado para tantos ou mais caras do que uma mulher que trepa de início. Se a garota vive em função de arranjar um namorado, por exemplo, e não consegue facilmente, isto é bem possível. Assim como é bem provável que uma mulher “de primeira”, despreocupada com o assunto, conte nos dedos os carinhas com quem já fez sexo. Mas cá entre nós, não merecemos esses caras que herdaram do pai ou do avô a teoria de que existe “mulher para casar” e “mulher para transar”, né?
Só fazendo um adendo, também não podemos generalizar: óbvio que existem aquelas mulheres que não fazem sexo à primeira vista e não estão simplesmente cumprindo o joguinho. Para elas, tão natural como para mim é transar logo, é esperar um momento que julga mais adequado: é bom dar um tempinho para conhecer melhor o fulano e ver como ele se comporta em situações diversas antes do grand finale. E tem também o lado da vontade, que pode prorrogar o ato principal um pouco em prol de uma causa maior: o prazer da expectativa. Na outra ponta, posso afirmar que se engana quem pensa que este prazer é nulo entre as mulheres com o meu perfil. Pelo contrário: a expectativa sempre está presente. Afinal, somente depois é que vamos conhecer melhor o parceiro e seus segredos, além de descobrir como ele se porta em ocasiões diferentes.

PS.: Apesar de esta não ser uma questão que abale meus dias, resolvi registrar minha percepção “de quinta” depois de ler sobre o tema no Manual do Cafajeste. Recomendo, vale a pena conferir como eles encaram o assunto.

Foto: Philippe Ramakers/Stock.xchng